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Na sessão “Debate Bakhita” serão compartilhados artigos, reportagens e demais materiais, para refletirmos sobre aspectos relacionados à Educação Integral. Convocamos a comunidade escolar para participar desse fórum, com o objetivo de contribuir com a construção de um olhar coletivo sobre a educação.

Os textos serão publicados periodicamente  no site da escola e no Facebook.

O primeiro texto selecionado pela equipe pedagógica é um trecho do livro “Senta e Pensa – Construindo os Limites da Infância”, uma obra que discute os limites e valores dos filhos diante das transformações da sociedade. O autor, Paulo Ronca, discute sobre a ocorrência de “uma histeria coletiva de valorização da criança” e o papel da família nessa formação.

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Os contextos da vida contemporânea, como rotina de trabalho, assédio de consumo imposto pela mídia, entre outros, provocam novas dinâmicas no cotidiano das famílias e escolas, consequentemente influenciando na formação das crianças.

Uma reflexão sobre como mediar as necessidades e interesses das crianças é fundamental para garantir um desenvolvimento saudável. Muitas vezes as estratégias mais adequadas para atribuir um significado à um conflito e/ou negociação são mais trabalhosas, mas investir na construção de limites pautados em valores e combinados é de extrema importância.

Como vocês lidam com essas questões?

Vamos compartilhar sugestões, angústias, dúvidas ou qualquer outra forma de contribuição sobre o tema.

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birra

Texto do Mês:

“Infeliz da criança que teve todos os seus desejos atendidos!” *

Trecho do livro “Senta e Pensa – Construindo os Limites da Infância”

por Paulo Afonso Caruso Ronca (Doutor em Psicologia Educacional pela Unicamp e diretor do Instituto Esplan)

 

O egocentrismo vivido pela criança a faz sentir-se só, como se fosse a única criatura no mundo. Ela se sente o centro do universo e tudo e todos devem girar em torno dela.

As sensações, percepções, desejos e sentimentos em relação ao mundo que povoam o inconsciente da criança são absurdamente egocêntricos. Esta é uma lei do desenvolvimento natural e normal dos humanos. O que se há de fazer? Piaget faz uma brilhante analogia para explicar o egocentrismo, quando afirma que a criança leva tudo à boca, mas é esta que “puxa” tudo para dentro de si. Se isso assim é, ela não tem capacidade de compreensão de que, além dela, existe o “outro”; assim, crê que tudo e todos vivem para contentar as suas vontades e satisfações. Tais dimensões são comuns e habituais; contudo (espera-se…) momentâneas e passageiras.

A criança se acha a dona do mundo: De tudo, de algumas pessoas, de brinquedos, de objetos, sendo que, por vezes, por exemplo, na hora em que está comendo, alguém diz: Eu vou comer o seu papá, ao que ela responde de imediato: “Não, ete é m-e-upapá, vai bora daqui”. Tudo e todos passam a girar em torno dela para somente atender aos seus instintos primitivos ou satisfazer Às necessidades naturais, tanto as básicas (aquelas de sua própria natureza), como as culturais (criadas pela comunidade em que vive e que são assimiladas por ela).

Egocêntrica, a criança, digamos, passa a ser refém dela mesma. Todos esses fenômenos causam tensões psicológicas, dividindo-a entre as permissões ou as ordens do mundo adulto e o que ela pode ou sente vontade de fazer. Tudo é dela e para ela, o que torna difícil dividir com os outros. Por ser mais difícil, dividir é a operação da Aritmética ensinada por último na vida escolar. Primeiro a soma, depois a subtração, a multiplicação e por última a divisão. Se assim é na escola, também é na vida.

Um exemplo clássico do que lhes escrevo sobre egocentrismo ocorre quando um adulto brinca com a criança e, apontando para a mãe dela diz:

– Esta é minha mãe!

Ao que ela responde entre ríspida e brava:

– Não, esta é M-I-N-H-A mãe.

Esse “M-I-N-H-A” é forte e significa tanta posse que algumas chegam a chorar por conta da brincadeira. Aos poucos, especialmente pelas experiências passadas, poderá sentir e perceber que o “outro” já pode conviver com ela e, como diz o poeta, pescar conjuntamente em seu riozinho…

O papel dos pais e dos educadores que convivem com a criança, é importantíssimo, no sentido de não atenderem sempre todas as suas vontades e dar-lhes a perceber – pela voz de comando – que elas podem superar as frustrações.

E como se aprende a superar frustrações? Passando pela vivência delas. Não há outra maneira. Jamais ela aprenderá, se os adultos a satisfazerem em tudo, não lhe permitindo passar pela experiência de sentir frustrada. A experiência é a mãe do conhecimento! Como se aprende a andar? Andando…

As atitudes que envolvem a voz de comando, sempre aqui sugeridas e discutidas, ajudam-na não só a perceber a outra pessoa, como também a senti-la; é o imperioso e lento processo de “sair de si mesma para ir ao encontro do outro”. Esse processo intitulado “sociocentrismo” se dá inicialmente na relação interpessoal que as crianças travam com os pais, quando estes, ao mesmo tempo carinhosos e afetivos, desde cedo começam a educar, colocando os limites condizentes com a idade. Por conta desse egocentrismo, às vezes, é necessário um Chacoalhão na criança. Os leitores entenderiam melhor se eu escrevesse um choque de gestão! Chacoalhar. Entenda o leitor que utilizei este verbo mais no sentido figurado, do que na acepção exata da palavra. Nenhum significado físico como, por exemplo, agitar, abalar, ou balançar. Explico melhor: Por analogia, há um provérbio árabe que diz assim: “Os homens são como tapetes: Às vezes precisam ser sacudidos”.

Contudo, sem a ajuda dos pais, o processo de deixar o egocentrismoe ir em direção ao sociocentrismo pode se tornar penoso e demorado. O que conta a seu favor é que tal processo é reconfortador, pois, digamos, ao deixar o egocentrismo, a criança renasce.

Começa a dividir, a trocar afetos, a ter amigos e a pensar nos outros. Aprende a ter amizades, a gostar de viver em grupo e a precisar deste. Seria como o seu segundo parto!

Com essas ou outras atitudes educacionais, as crianças não se sentem mais tão “sozinhas” no mundo. Começam a perceber que há alguém em que podem confiar e que as amam.

Infeliz da criança que não foi chacoalhada na vida, que não sentiu uma voz forte, uma possível palmada no bumbum ou a presença educativa e intensa do pai e da mãe.

Infeliz daquelas que não experimentaram frustrações. As frustrações deixam as crianças fortes, embora temporariamente tristes; enchem-lhes de consistentes energias vitais e as acostumam às possíveis rudezas da vida; magoam-nas, transitoriamente, para torná-las fortes amanhã.

Por fim, aquele que nunca vivei a angústia, nunca reconhecerá o júbilo.

*Doutor em Psicologia Educacional pela Unicamp e diretor do Instituto Esplan

Trecho do livro “Senta e Pensa” – Construindo os limites da infância

 

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